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O Propósito dos Zoos mudou

6 Janeiro 2026

Os zoos deixaram de ser meros guardiões de espécies para se tornarem agentes ativos na transformação dos valores, atitudes e comportamentos humanos, assumindo um papel decisivo na construção de uma sociedade que valoriza e protege a natureza.

 

Longe vai o tempo em que os zoos eram coleções privadas de animais exóticos destinadas ao entretenimento de elites. Ao longo do século XX, estas instituições transformaram-se progressivamente em centros dedicados à conservação, investindo em programas de reprodução de espécies ameaçadas, investigação científica e campanhas de sensibilização. Esta evolução refletiu uma crescente consciência sobre a ética no bem-estar e o papel que estas instituições poderiam desempenhar na proteção da biodiversidade. No entanto, face à escala e urgência dos desafios ambientais contemporâneos, mesmo esta abordagem moderna pode já não ser suficiente, exigindo uma nova transformação no propósito fundamental dos zoos.

O recente position statement da IUCN sobre o papel dos zoos na conservação dá-nos um olhar transformador desta nova realidade. Em vez de posicionar estas instituições como simples repositórios de espécies ameaçadas ou centros de educação ambiental, o documento reconhece o seu potencial único enquanto plataformas para uma mudança de paradigma neste esforço societal conjunto.

Esta transformação assenta numa visão complementar em que os zoos são uma das muitas peças do puzzle para a conservação global. Por um lado, mantém-se o compromisso tradicional com o bem-estar animal, a investigação em biologia da conservação e a gestão de populações ex-situ – uma dimensão focada diretamente nos animais e nos seus habitats. Por outro lado, emerge uma segunda dimensão igualmente crítica: a transformação dos valores, atitudes e comportamentos das sociedades humanas que, em última análise, determinam o futuro da biodiversidade. Estas duas vertentes não são paralelas ou independentes, mas profundamente interdependentes e comunicantes.

Esta perspetiva integrada reconhece que o sucesso de programas de reintrodução, a eficácia de corredores ecológicos ou a sobrevivência de populações selvagens dependem fundamentalmente de mudanças nas escolhas quotidianas de milhões de pessoas – desde padrões de consumo até ao apoio a políticas ambientais. Simultaneamente, o trabalho direto com animais e ecossistemas fornece o conhecimento, as histórias e a legitimidade necessários para inspirar essas transformações sociais. Os zoos encontram-se hoje numa posição única para operacionalizar esta visão integrada, ligando a ciência da conservação biológica com a ciência do comportamento humano numa estratégia coerente e mutuamente reforçadora.

A transição de um modelo centrado na sensibilização para um focado na mudança comportamental representa claramente esta mudança paradigmática. Tradicionalmente, os zoos investiram recursos significativos em campanhas de sensibilização, assumindo que informar o público sobre ameaças à biodiversidade conduziria automaticamente a mudanças de atitude e comportamento. No entanto, décadas de investigação em psicologia social demonstram que este modelo linear – conhecimento gera atitude que gera comportamento – não retrata o que realmente acontece nas nossas vidas. As pessoas podem conhecer perfeitamente os problemas ambientais e, ainda assim, não alterar os seus comportamentos.

É aqui que reside a oportunidade transformadora para os zoos. Com milhões de visitantes anualmente, estas instituições possuem um acesso privilegiado a públicos diversos, criando contextos emocionalmente envolventes onde valores ambientais mais sustentáveis podem ser cultivados. A proximidade com animais, a experiência afetiva da visita e o contexto social único dos zoos posicionam estas instituições como espaços privilegiados para promover uma reconexão profunda com a natureza. Ao facilitar experiências significativas que desafiam normas sociais insustentáveis e celebram comportamentos pró-ambientais, os zoos podem funcionar como catalisadores na construção de uma sociedade que valoriza genuinamente a biodiversidade e age em sua defesa.

Mas esta reorientação exige que os zoos desenvolvam competências em áreas até agora periféricas à sua missão tradicional. A psicologia da conservação, a economia comportamental e o marketing social tornam-se agora disciplinas centrais. Esta expansão de competências não representa uma substituição do conhecimento zoológico e biológico existente, mas antes uma evolução necessária que reconhece que salvar espécies requer também transformar sociedades.

 

O propósito dos zoos mudou porque a natureza do desafio mudou. A questão não é mais apenas salvar espécies, mas transformar a relação da humanidade com o mundo natural.

 

 

João Neves, PhD

Diretor de Ciência e Conservação, Zoomarine Algarve